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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Capitães da areia: as crianças de rua ontem e hoje

Exibi para os alunos do 2o EJA o filme Capitães da areia, aproveitando em seguida para levantar uma discussão sobre a situação das crianças de rua, retratada na película. Também distribuí cópias de um trecho do livro. Em seguida, pedi que produzissem um texto a partir das seguintes questões:

                                                                                           Dora e Pedro Bala

1) A história de Capitães da areia se passa nos anos 1930. Na sua opinião, o que mudou na realidade das crianças de rua brasileiras daquele tempo para hoje? Houve avanços? Piorou?

2) O personagem "Professor" afirma à certa altura do filme que "A gente nunca vai deixar de ser ladrão. Não podemos ser outra coisa." Você concorda com ele ou acredita que um menor infrator pode se regenerar e deixar a marginalidade?

3) O que se ganha e o que se perde ao se adaptar uma obra literária para a TV ou o cinema? Quais as vantagens e desvantagens do filme em relação ao livro?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Variações linguísticas




Para trabalhar o conteúdo variações linguísticas, sugerimos a canção "Conselho de mulher", acima, de Adoniran Barbosa, e o poema "Relicário", do modernista Oswald de Andrade.


Relicário 

No baile da Corte
Foi o Conde d'Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí 
 


Que tal, após apresentar esses textos aos alunos, pedir que eles os "traduzam" para a norma-padrão?

P.S. Sobre variações linguísticas, http://educacao.uol.com.br/disciplinas/portugues/variacoes-linguisticas-o-modo-de-falar-do-brasileiro.htm

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

OFICINA DE MICROCONTOS III

Após as escritas e reescritas chegamos às versões finais dos microcontos que, honestamente, me surprenderam pela qualidade. Proponho aos alunos que divulguem seus trabalhos para o maior número de leitores/ouvintes possível. Chego a sugerir um sarau, mas eles, tímidos, recuam. Porém, aceitam que eu escreva seus microcontos no quadro-negro, para que a turma tenha acesso aos trabalhos dos colegas. E, ainda, eles não só aceitam como se entusiasmam com a proposta de imprimir e colar os microcontos no mural da escola (ver foto). Também publico as obras, acompanhadas de um texto meu contextualizando a experiência em meu blog pessoal (www.6-boca.blogspot.com) e também, agora, na plataforma e-Proinfo e neste meu novíssimo portfólio digital.




“Naquele dia tentamos mudar o mundo, mas ele não quis acordo.”

“Mil voltas dadas na cama e o sono sem aparecer.”

“Ele era feio, ela era feia, mas juntos formavam um belo casal.”

 “Se ele não tivesse acreditado tanto, não teria quebrado a cara.”

“Brincando com a arma do pai, o irmãozinho, sem saber, ao disparar contra o outro, matou com uma única bala todos os sonhos de uma família feliz.”

“Tudo seria diferente se ele não estivesse lá.”

“Aquele policial racista acabou morto por uma arma branca.”

“Procura-se uma pessoa sem nome, sem documento e que ainda não nasceu. Quem vir, avise.”

“Olhei. Admirei. Pensei. Vi um céu tão lindo e Azul, que esconde tanta tristeza. E que a ameaça a luz.”

“Deixava suas contas atrasarem mesmo com o relógio adiantado em cinco minutos.”

 “Seus risos eram escondidos. Dores insanas.”

“Eu via a cena, mas não sabia se estava participando.”
Viviane Nascimento

A qualidade dos microcontos acima - em uns mais, em outros menos - é evidente. Observe também a variedade. Tem politicamente correto, exercícios de síntese, lição de moral, lirismo e até fantástico.
     
O que poderá ser surpresa é que essas produções são de alunos meus de EJA (Educação de Jovens e Adultos), de uma escola estadual da periferia. Perfil: entre 18 anos e a terceira idade, tiveram de interromper os estudos e agora correm atrás do prejuízo ou, mesmo, só entraram numa sala de aula já adultos.

São estudantes que têm algumas dificuldades, óbvio, e por isso alguns apelidam o EJA de “Eles Jamais Aprenderão”. Mas o que esses microcontos me ensinaram é que, com um empurrãozinho de nada, a literatura pode brotar de qualquer lugar.   



                                                                                      Literatura no mural

OFICINA DE MICROCONTOS II


Relato a seguir as etapas da oficina, realizada com os alunos do 3º EJA da EEEFM Daura Santiago Rangel:

Inicialmente, reviso o conceito de gênero textual, ponto de partida para o trabalho de conceituação de ficção. Daí, discuto os gêneros desta: conto, novela e romance, sempre ressaltando as noções de enredo e personagem, e discutindo as especificidades de cada forma, como por exemplo a extensão e a complexidade de cada uma.
O passo seguinte é apresentar as características do microconto. Como quase tudo (talvez tudo) em literatura, a definição de microconto é discutível. Uma delas afirma que ele deve ter a extensão máxima de um tweet, ou seja, 140 caracteres.
Como exemplo, apresento aos alunos os seguintes microcontos, e os provoco a perceberem que, mesmo muito curtos, tais textos trazem enredo, personagens e, sobretudo, qualidade literária – aquele trabalho com a linguagem que distingue literatura da linguagem cotidiana:

“Vende-se:
Sapatinhos de bebê nunca usados”
Ernest Hemingway

“Gravidez:
Deu para engordar.”
Cristina Alves

A próxima etapa é prática. Concedo aos alunos o prazo de uma semana para criarem um microconto. A seguir resumo o envolvimento de cada turma com a ideia:

3º EJA “A”: O engajamento foi bastante satisfatório. Dos alunos que frequentam regularmente as aulas, apenas dois não produziram ao menos um microconto. Alguns a princípio copiaram obras da internet e apresentaram como suas. Expliquei que isso caracterizava plágio e, para talvez a surpresa deles mesmos, depois conseguiram criar seus contos, e com qualidade. Houve casos ainda de alunos que entenderam que eu havia pedido uma pesquisa sobre a definição de microconto, no que eu expliquei que aquele não era o foco, e esses também criaram seus próprios trabalhos.

                                   Ernest Hemingway, escritor americano

3º EJA “B”: Ao contrário da outra turma, aqui encontrei resistência à ideia e apenas um aluno aceitou o desafio e, após algumas tentativas, conseguiu produzir um microconto que pudesse ser assim chamado.

sábado, 18 de agosto de 2012

OFICINA DE MICROCONTOS


EEEFM DAURA SANTIAGO RANGEL
Disciplina: Língua Portuguesa
Ensino médio – EJA
Prof. Bruno Ricardo


ATIVIDADE: OFICINA DE MICROCONTOS

Conteúdos:

Literatura, produção textual, gêneros textuais, ficção.


Objetivos:

Geral: Apresentar aos alunos o conceito de narrativa ficcional, levando-os a também a praticarem a redação de microcontos.


Específicos:

  • Entender as particularidades da escrita ficcional.
  • Tomar contato com autores da literatura universal que produziram microcontos.
  • Escrever e publicar microcontos., tanto para a comunidade escolar como para o público em geral, através da web.


Desenvolvimento:

  • Introduzir os alunos nas características da ficção; diferenciar conto, novela e romance, do ponto de vista da complexidade, extensão, entre outros aspectos
  • Apresentar aos alunos o conceito de microcontos, bem como seu histórico e acesso a alguns escritores que ajudaram a canonizar o gênero, como Dalton Trevisan e Ernest Hemingway.
  • Escrita e reescrita dos microcontos
  • Publicação dos textos produzidos pelos alunos no mural da escola e em um blog a ser criado especificamente para a oficina


Avaliação

Fazer os alunos perceberem no que a linguagem literária se diferencia, do ponto de vista de seus objetivos, da cotidiana. Levá-los a entenderem que ficção trabalha, básica e fundamentalmente, com enredo e personagens. Observar a prática da concisão, que justifica o microconto.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O teórico húngaro Ference Fehér é o autor de "O romance está morrendo?". 

Não estranhe o título apocalíptico, ele não está sozinho. 

Muita gente diz que o romance é um gênero superado, moldado em Cervantes, aprimorado entre as revoluções industriais e esgotado em Joyce e Kafka. 

Na minha humilíssima opinião, dizer que o romance já deu o que tinha que dar é tão descabido quanto afirmar que a História acabou junto com o Muro de Berlim.

Porém, eu já acho que o conto envelheceu melhor que seu primo maior. Por mais incensados que sejam os contos de Machado de Assis, Lima Barreto, Poe, etc., eu sinto muito mais prazer nas experiências mais modernas de Cortázar, Rubem Fonseca e vários outros.

Aqueles mestres deram o pontapé inicial, mas o conto progrediu muito e soube, sim, se adaptar melhor que o romance, o qual tem como habitat natural a sociedade burguesa do século XIX (nisso concordam 100% dos críticos). E de fato, eu não conheço nenhum romance recente que sirva pra amarrar os sapatos de Dom Casmurro.
Em "O crocodilo" Vinícius prova que um filho é pior que o assustador réptil. Esta última estrofe é perfeita: 

O filho é um monstro. E uma vos digo 
Ainda por píssico me tomem: 
Nunca verei um crocodilo 
Chorando lágrimas de homem.