Exibi para os alunos do 2o EJA o filme Capitães da areia, aproveitando em seguida para levantar uma discussão sobre a situação das crianças de rua, retratada na película. Também distribuí cópias de um trecho do livro. Em seguida, pedi que produzissem um texto a partir das seguintes questões:
Dora e Pedro Bala
1) A história de Capitães da areia se passa nos anos 1930. Na sua opinião, o que mudou na realidade das crianças de rua brasileiras daquele tempo para hoje? Houve avanços? Piorou?
2) O personagem "Professor" afirma à certa altura do filme que "A gente nunca vai deixar de ser ladrão. Não podemos ser outra coisa." Você concorda com ele ou acredita que um menor infrator pode se regenerar e deixar a marginalidade?
3) O que se ganha e o que se perde ao se adaptar uma obra literária para a TV ou o cinema? Quais as vantagens e desvantagens do filme em relação ao livro?
Professor concursado de Língua Portuguesa na EEEFM Daura Santiago Rangel, em João Pessoa, desde março de 2012. Mestrando em Literatura na UFPB. CONTATO: brunoerre@gmail.com
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segunda-feira, 27 de agosto de 2012
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Variações linguísticas
Para trabalhar o conteúdo variações linguísticas, sugerimos a canção "Conselho de mulher", acima, de Adoniran Barbosa, e o poema "Relicário", do modernista Oswald de Andrade.
Relicário
No baile da Corte
Foi o Conde d'Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí
Relicário
No baile da Corte
Foi o Conde d'Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí
Que tal, após apresentar esses textos aos alunos, pedir que eles os "traduzam" para a norma-padrão?
P.S. Sobre variações linguísticas, http://educacao.uol.com.br/disciplinas/portugues/variacoes-linguisticas-o-modo-de-falar-do-brasileiro.htm
P.S. Sobre variações linguísticas, http://educacao.uol.com.br/disciplinas/portugues/variacoes-linguisticas-o-modo-de-falar-do-brasileiro.htm
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
OFICINA DE MICROCONTOS III
Após as escritas e reescritas chegamos às versões
finais dos microcontos que, honestamente, me surprenderam pela qualidade.
Proponho aos alunos que divulguem seus trabalhos para o maior número de
leitores/ouvintes possível. Chego a sugerir um sarau, mas eles, tímidos,
recuam. Porém, aceitam que eu escreva seus microcontos no quadro-negro, para
que a turma tenha acesso aos trabalhos dos colegas. E, ainda, eles não só aceitam
como se entusiasmam com a proposta de imprimir e colar os microcontos no mural
da escola (ver foto). Também publico as obras, acompanhadas de um texto meu
contextualizando a experiência em meu blog pessoal (www.6-boca.blogspot.com) e também,
agora, na plataforma e-Proinfo e neste meu novíssimo portfólio digital.
Literatura no mural
“Naquele dia tentamos
mudar o mundo, mas ele não quis acordo.”
“Mil voltas dadas na
cama e o sono sem aparecer.”
“Ele era feio, ela
era feia, mas juntos formavam um belo casal.”
“Se ele não tivesse acreditado tanto, não
teria quebrado a cara.”
“Brincando com a arma
do pai, o irmãozinho, sem saber, ao disparar contra o outro, matou com uma
única bala todos os sonhos de uma família feliz.”
“Tudo seria diferente
se ele não estivesse lá.”
“Aquele policial
racista acabou morto por uma arma branca.”
“Procura-se uma
pessoa sem nome, sem documento e que ainda não nasceu. Quem vir, avise.”
“Olhei. Admirei.
Pensei. Vi um céu tão lindo e Azul, que esconde tanta tristeza. E que a ameaça
a luz.”
“Deixava suas contas
atrasarem mesmo com o relógio adiantado em cinco minutos.”
“Seus risos eram escondidos. Dores insanas.”
“Eu via a cena, mas
não sabia se estava participando.”
Viviane Nascimento
A qualidade dos
microcontos acima - em uns mais, em outros menos - é evidente. Observe também a
variedade. Tem politicamente correto, exercícios de síntese, lição de moral,
lirismo e até fantástico.
O que poderá ser
surpresa é que essas produções são de alunos meus de EJA (Educação de Jovens e
Adultos), de uma escola estadual da periferia. Perfil: entre 18 anos e a
terceira idade, tiveram de interromper os estudos e agora correm atrás do
prejuízo ou, mesmo, só entraram numa sala de aula já adultos.
São estudantes que
têm algumas dificuldades, óbvio, e por isso alguns apelidam o EJA de “Eles
Jamais Aprenderão”. Mas o que esses microcontos me ensinaram é que, com um
empurrãozinho de nada, a literatura pode brotar de qualquer lugar.
Literatura no mural
OFICINA DE MICROCONTOS II
Relato a
seguir as etapas da oficina, realizada com os alunos do 3º EJA da EEEFM Daura
Santiago Rangel:
Inicialmente,
reviso o conceito de gênero textual, ponto de partida para o trabalho de
conceituação de ficção. Daí, discuto os gêneros desta: conto, novela e romance,
sempre ressaltando as noções de enredo e personagem, e discutindo as
especificidades de cada forma, como
por exemplo a extensão e a complexidade de cada uma.
O passo
seguinte é apresentar as características do microconto. Como quase tudo (talvez
tudo) em literatura, a definição de microconto é discutível. Uma delas afirma
que ele deve ter a extensão máxima de um tweet,
ou seja, 140 caracteres.
Como exemplo,
apresento aos alunos os seguintes microcontos, e os provoco a perceberem que,
mesmo muito curtos, tais textos trazem enredo, personagens e, sobretudo,
qualidade literária – aquele trabalho com a linguagem que distingue literatura
da linguagem cotidiana:
“Vende-se:
Sapatinhos de
bebê nunca usados”
Ernest
Hemingway
“Gravidez:
Deu para engordar.”
Cristina
Alves
A próxima
etapa é prática. Concedo aos alunos o prazo de uma semana para criarem um
microconto. A seguir resumo o envolvimento de cada turma com a ideia:
3º EJA “A”: O
engajamento foi bastante satisfatório. Dos alunos que frequentam regularmente
as aulas, apenas dois não produziram ao menos um microconto. Alguns a princípio
copiaram obras da internet e apresentaram como suas. Expliquei que isso
caracterizava plágio e, para talvez a surpresa deles mesmos, depois conseguiram
criar seus contos, e com qualidade. Houve casos ainda de alunos que entenderam
que eu havia pedido uma pesquisa sobre a definição de microconto, no que eu
expliquei que aquele não era o foco, e esses também criaram seus próprios
trabalhos.
3º EJA “B”:
Ao contrário da outra turma, aqui encontrei resistência à ideia e apenas um
aluno aceitou o desafio e, após algumas tentativas, conseguiu produzir um
microconto que pudesse ser assim chamado.
sábado, 18 de agosto de 2012
OFICINA DE MICROCONTOS
EEEFM DAURA SANTIAGO
RANGEL
Disciplina: Língua
Portuguesa
Ensino médio – EJA
Prof. Bruno Ricardo
ATIVIDADE: OFICINA DE
MICROCONTOS
Conteúdos:
Literatura, produção
textual, gêneros textuais, ficção.
Objetivos:
Geral: Apresentar aos
alunos o conceito de narrativa ficcional, levando-os a também a
praticarem a redação de microcontos.
Específicos:
- Entender as particularidades da escrita ficcional.
- Tomar contato com autores da literatura universal que produziram microcontos.
- Escrever e publicar microcontos., tanto para a comunidade escolar como para o público em geral, através da web.
Desenvolvimento:
- Introduzir os alunos nas características da ficção; diferenciar conto, novela e romance, do ponto de vista da complexidade, extensão, entre outros aspectos
- Apresentar aos alunos o conceito de microcontos, bem como seu histórico e acesso a alguns escritores que ajudaram a canonizar o gênero, como Dalton Trevisan e Ernest Hemingway.
- Escrita e reescrita dos microcontos
- Publicação dos textos produzidos pelos alunos no mural da escola e em um blog a ser criado especificamente para a oficina
Avaliação
Fazer os alunos
perceberem no que a linguagem literária se diferencia, do ponto de
vista de seus objetivos, da cotidiana. Levá-los a entenderem que
ficção trabalha, básica e fundamentalmente, com enredo e
personagens. Observar a prática da concisão, que justifica o
microconto.
Marcadores:
alunos,
conto,
EJA,
literatura,
projeto didático
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
O teórico húngaro Ference Fehér é o autor de "O romance está morrendo?".
Não estranhe o título apocalíptico, ele não está sozinho.
Muita gente diz que o romance é um gênero superado, moldado em Cervantes, aprimorado entre as revoluções industriais e esgotado em Joyce e Kafka.
Na minha humilíssima opinião, dizer que o romance já deu o que tinha que dar é tão descabido quanto afirmar que a História acabou junto com o Muro de Berlim.
Porém, eu já acho que o conto envelheceu melhor que seu primo maior. Por mais incensados que sejam os contos de Machado de Assis, Lima Barreto, Poe, etc., eu sinto muito mais prazer nas experiências mais modernas de Cortázar, Rubem Fonseca e vários outros.
Aqueles mestres deram o pontapé inicial, mas o conto progrediu muito e soube, sim, se adaptar melhor que o romance, o qual tem como habitat natural a sociedade burguesa do século XIX (nisso concordam 100% dos críticos). E de fato, eu não conheço nenhum romance recente que sirva pra amarrar os sapatos de Dom Casmurro.
Não estranhe o título apocalíptico, ele não está sozinho.
Muita gente diz que o romance é um gênero superado, moldado em Cervantes, aprimorado entre as revoluções industriais e esgotado em Joyce e Kafka.
Na minha humilíssima opinião, dizer que o romance já deu o que tinha que dar é tão descabido quanto afirmar que a História acabou junto com o Muro de Berlim.
Porém, eu já acho que o conto envelheceu melhor que seu primo maior. Por mais incensados que sejam os contos de Machado de Assis, Lima Barreto, Poe, etc., eu sinto muito mais prazer nas experiências mais modernas de Cortázar, Rubem Fonseca e vários outros.
Aqueles mestres deram o pontapé inicial, mas o conto progrediu muito e soube, sim, se adaptar melhor que o romance, o qual tem como habitat natural a sociedade burguesa do século XIX (nisso concordam 100% dos críticos). E de fato, eu não conheço nenhum romance recente que sirva pra amarrar os sapatos de Dom Casmurro.
Em "O crocodilo" Vinícius prova que um filho é pior que o assustador réptil. Esta última estrofe é perfeita:
O filho é um monstro. E uma vos digo
Ainda por píssico me tomem:
Nunca verei um crocodilo
Chorando lágrimas de homem.
O filho é um monstro. E uma vos digo
Ainda por píssico me tomem:
Nunca verei um crocodilo
Chorando lágrimas de homem.
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